Depois de uma noite quase em claro, o dia apresentou-se bem mais calmo. Um dia sem esperas, muitos cuidados, tentativas, passo a passo, até ao objectivo final - autolocomoção. Correu bem. Para minha surpresa, todos os auxiliares e enfermeiros, sem excepção, foram de uma delicadeza extrema, boa disposição e um sorriso que sabia a calmante. Lá consegui vestir um pijama decente à minha mãe, no lugar de uma bata sempre mal apertada que deixa a descoberto intimidades e pisa o nosso orgulho. Rápidas melhoras, só com esta mudança. Ritual, como se tivesse a sair para um dia de trabalho, cremes, perfume, maquilhagem. Estava pronta para a chegada dos amigos, que ansiosos esperavam pela hora da visita. Saí, veio a mana fazer o papel de mãe à nossa própia mãe. Ela saiu. Deu lugar "às visitas". Fizeram companhia durante toda a tarde, até eu voltar com a mala para dormir cá mais uma noite. Não sei do que falaram. De certeza que a minha mãe gostou, que se sentiu de novo no seu mundo, entre quatro paredes, mas com os pilares estruturais em volta. Também teve a visita do "senhor doutor", que tem a capacidade de a fazer falar com olhos. Assim que se apresenta, passam mil perguntas na cabeça da sua paciente, mas é a filha mais velha que acaba por perguntar o que é relevante. Perguntas com respostas prontas, cheias de experiência e naturalidade de quem sabe. Dá boas notícias e por isso, inconscientemente, passa a ser um "óptimo médico". Deste dia, ficam, inevitavelmente, as flores, as conversas, a amizade, o bom profissionalismo e o cansaço estampado na cara da doente que por algum tempo se esqueceu que o era.
Já dorme. Amanhã será o dia da boa notícia? "Podemos ir para casa, senhor doutor?"
Não que eu seja de muitas palavras ou de me alongar, mas hoje apetece-me... Este tempo de espera, o click-clack na minha cabeça, fez-me pensar. Fez-me ver que podemos ser tudo ou nada, para nós, para os nossos amigos ou para os outros. É relativo quem somos, depende de quem vê e do que vê ou quer ver. Tenho a sensação que andamos numa roda viva para mostrar aos outros o que idealizamos ser; achamos sempre que é pouco e podemos fazer mais; os outros veêm mais do que o realmente somos e tentam competir para ainda serem melhores, e assim sucessivamente, como uma bola de neve. Mas há um sítio onde todos somos iguais... aqui, onde estou, nesta espera, neste silêncio que tudo deixa ouvir: campainhas ritmadas ao longe que insistem em não parar, o passo lento ou apressado dos auxiliares que cumprem os seus horários, as rodas que giram junto ao chão e fazem andar as camas, o comboio de carga que passa mesmo aqui em baixo, os gemidos de um paciente que contrastam com os risos dos profissionais, os meus próprios pensamentos que ecoam sem cessar dentro da minha cabeça, os meus batimentos cardíacos acelerados pela espera...
Estes são alguns dos tecidos que ainda tenho disponíveis para fazer flores, marcadoes de livros, agendas, forrar dossiers, bonecas, animais, pregadeiras, etc.
É já dia 24 deste mês que começa a 6ª série da Anatomia de Grey! Para quem acompanha e ficou no mesmo sufoco que eu, no fim da série 5, sem saber se a Izzie e o George morrem ou não, aqui fica uma pequena amostra.